Hoje, não há palavras neutras
segunda-feira, 25 de julho de 2022
Estado da Nação
terça-feira, 31 de maio de 2022
Enquanto uma vaca em Ardenas se solta
" É claro que o nós não existe quando a barriga diz a fome. Quando a mulher diz a carne profanada. Quando o escravo diz o calor do chicote. Nós é um pronome de prósperos. Uma palavrinha cara aos humanistas. Somes universalistas quando não duvidamos dos dons do universo; somos do mundo inteiro quando se é bem-nascido nele. Nós é para não dizer nada do fundo da questão: que a humanidade não existe, mas apenas aqueles que dizem as ordens e aqueles que as ouvem. Nós é uma mentira de todo o tamanho."
Joseph Andras, em ASSIM LHES FAZEMOS A GUERRA, Tradução de Luís Leitão
quarta-feira, 13 de abril de 2022
domingo, 20 de março de 2022
Nunca foste particularmente bonita
Nem nunca tiveste olhos grandes
Nem houve grande elegância no teu andar
Muito menos suaves melodias na tua voz
Nem expressar com rigor as tuas ideias
Tão pouco ser suficientemente convicta
Para encher salas ou concentrar os distraídos
Sempre te conheci meio tosca, meio sisuda
Um tanto aluada, bastante desorganizada
Sem jeito para orientação temporal
E sem conservar qualquer memória dos espaços.
Praticamente todos os aspectos da vida prática
Tu, indiferente. Demais era o ócio
Massacraste-te só em doses moderadas
Por não seres essa mulher que não há, mas todas são.
Conseguiste até sê-la em alguns dias, com esforço,
Apaixonaram-se uns quantos,
Desapaixonaram-se uns mesmos.
Viveste leve tirando os dias de melancolia.
Para mim, incapaz de te amar
José Asunción Silva
Não penso, logo não existo
Tão pouco importa que exista
Essa treta toda profundamente literária
Esses pensamentos todos pseudo-complexos
Essa ambiguidade fútil, fingida, forçada
Não serve grandes propósitos, nem faz correr searas, nem
semeia rios, nem
colhe pingos de chuva.
Ocupa-te para que não penses
Não penses para que não existas
Não existas para que não incomodes
Dir-te-ão até ao fim do tempo
Repetirão sempre que oportuno
com raiva ou
subtileza ou
profunda frustração.
Acontece que as palavras nascem
de um incomódo, uma angústia, um sufoco
As palavras e nós
Se não aguentas as palavras
Se te perturba a cognição inútil
Vê um filme ou
troca de livro ou
não existas.
terça-feira, 7 de dezembro de 2021
Ouvi (alguém) dizer
Ouvi dizer que só se sabe algo sobre as nossas próprias palavras com a distância do tempo, deixando-as amadurecer podem tornar-se agradáveis e doces, passando a ser lembradas com carinho, ou podem crescer rebeldes, irreconhecíveis e profundamente embaraçosas.
Achei que era realmente verdade. Deixo-as aqui assim, a amadurecer...
segunda-feira, 29 de novembro de 2021
Embala-me mais um pouco
Só até esquecer o espaço
Deixar de pensar o passo
Compreender o compasso
Lembra-me que posso ser
gente com leveza no dançar
Embala-me mais um pouco
Só até correr uma lágrima
Terminar esta canção bonita que é
Tornar-me livre no teu abraço
Lembra-me que posso ser
gente com expressão no olhar.
sexta-feira, 19 de novembro de 2021
NÓS SOMOS
Como uma pequena lâmpada subsiste
e marcha no vento, nestes dias,
na vereda das noites, sob as pálpebras do tempo.
dificilmente nas calçadas, nos quartos,
um país puro existe, homens escuros,
uma sede que arfa, uma cor que desponta no muro,
uma terra existe nesta terra,
nós somos, existimos
Como uma pequena gota às vezes no vazio,
como alguém só no mar, caminhando esquecidos,
na miséria dos dias, nos degraus desconjuntados,
subsiste uma palavra, uma sílaba de vento,
uma pálida lâmpada ao fundo do corredor,
uma frescura de nada, nos cabelos nos olhos,
uma voz num portal e a manhã é de sol,
nós somos, existimos.
Uma pequena ponte, uma lâmpada, um punho,
uma carta que segue, um bom dia que chega,
hoje, amanhã, ainda, a vida continua,
no silêncio, nas ruas, nos quartos, dia a dia,
nas mãos que se dão, nos punhos torturados,
nas frontes que persistem,
nós somos,
existimos.
António Ramos Rosa