segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Embala-me mais um pouco
Só até esquecer o espaço
Deixar de pensar o passo
Compreender o compasso 
Lembra-me que posso ser
gente com leveza no dançar

Embala-me mais um pouco
Só até correr uma lágrima
Terminar esta canção bonita que é
Tornar-me livre no teu abraço

Lembra-me que posso ser
gente com expressão no olhar.

 



Is it the absence of reason that set us free?
Free from the constraint of the body 
From the social prison of fear and judgment
Miles away from the scientific evidence tyranny 

Who are we without the right perfect connections of hemispheres?
Losing signaling pathways, regulation networks, homeostatic balance
Produce pathologically deep psychotic creatures needing help
Dysfunctional poor human beings drowning in the nonsense of brain
And somehow the most innocent, transparent, loving, incredibly brilliant ones

Where is creativity hiding after all? In the wrong neural intersections? 
The messy trials? The neurotransmitters overload?
Or is it just an unfair fight searching for reason in an unreasonable world?

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

NÓS SOMOS

Como uma pequena lâmpada subsiste
e marcha no vento, nestes dias,
na vereda das noites, sob as pálpebras do tempo.

Caminhamos, um país sussurra,
dificilmente nas calçadas, nos quartos,
um país puro existe, homens escuros,
uma sede que arfa, uma cor que desponta no muro,
uma terra existe nesta terra,
nós somos, existimos
 
Como uma pequena gota às vezes no vazio,
como alguém só no mar, caminhando esquecidos,
na miséria dos dias, nos degraus desconjuntados,
subsiste uma palavra, uma sílaba de vento,
uma pálida lâmpada ao fundo do corredor,
uma frescura de nada, nos cabelos nos olhos,
uma voz num portal e a manhã é de sol,
nós somos, existimos.
 
Uma pequena ponte, uma lâmpada, um punho,
uma carta que segue, um bom dia que chega,
hoje, amanhã, ainda, a vida continua,
no silêncio, nas ruas, nos quartos, dia a dia,
nas mãos que se dão, nos punhos torturados,
nas frontes que persistem,
nós somos,
existimos.

António Ramos Rosa

segunda-feira, 5 de julho de 2021

Um dia sonhei que tinha os teus olhos.

Não, não os olhos. 

Um dia sonhei que tinha o teu olhar 
cheio, que consegue penetrar a alma e 
(des)concertá-la num segundo apenas.

Assim, tal e qual, mulher-tornado
Sem receio da força da sua voz
Nem do poder do seu corpo.

Consciente, ainda que perdida em si
Na intensidade de um levantar voo
E na dúvida recorrente da aterragem

Se te disserem que és em excesso,
responde que de nós só há falta.
Dizer excesso é mera ignorância 
da escassa coragem de se ser seu.

Por isso excede-te sempre. Sem hesitação
Sem remorso. Sem lamúria. Sem pudor.
A vida não é feita para se ter grandes certezas.

E não te esqueças, que um dia, três mulheres-tornado disseram:
"O pudor é uma nostalgia, serve para fingir que estão mortos os vivos demasiado incômodos."

A ti que nasceste com nome de mar 
E flutuas nesse limiar ténue
Entre o fundo do oceano e o princípio do mundo
Queria dizer-te que te invejo

Invejo essa tua espontaneidade crua
A energia que trazes a rebentar no corpo
Capaz de contagiar a humanidade inteira
e fascinar seres secos e rígidos como eu.
 
Eu que nunca soube como encher uma sala
E sempre procuro o pequeno conforto do canto
Olho-te quando entras, pronta a transbordar o rio,
e penso que essa força toda só pode vir do teu nome.

E tu vais alegar que é falso, que não és nem nunca foste tu,
Mas pouco importa a tua inconsciência de ti
Pouco importa se sabes que há tantos dias de mar alto 
Quantos dias de serena maresia 

Pouco importa que saibas que te invejo ou não
(Talvez por isso nunca to tenha dito assim) 
A única importância é que não te esqueças,
Que tens nome de mar. E o mar, 
não acaba nunca.

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Persegue-me um sopro por dentro

Nasce devagar na pontinha dos pés
Percorre a minha perna ainda tímido
Trepa todas as raízes da minha espinha
Contorna vísceras, trespassa o diafragma
Ganha de repente velocidades vertiginosas
Só para chegar num frio súbito ao peito
e me fazer (en)rolar sobre mim.

Não creio que seja a tua ausência,
Pensei que talvez a inexistência de ti.
Mas verdadeiramente não, só pode ser
Um sopro do medo ou da fúria.

Persegue-me um sopro
do medo de te perder
ou da fúria de me perder em ti.

Nascem no vazio as palavras
No espaço morto de um silêncio
É o som, a luz, o movimento, a cor
É a tua voz, a minha, o ruído do metro
Toda a vida que a correr nos poluí
e à escrita.

domingo, 21 de março de 2021

21 de Março e pela vida fora

Vilancete sobre o poema "ensina a cair" (Luiza Neto Jorge)

 A) Ensina a cair:
    1) sentado
    2) de joelhos
    3) de bruços
    4) de gatas
    5) de papo para o ar
    6) por conta própria ou alheia
    7) sozinho ou mal-acompanhado
    8) ou bem

B) Ensina a cair:
    1) na preguiça
    2) na desgraça
    3) na cadeia
    4) no vício
    5) na satisfação de escrevê-lo
    6) na arrelia de o não ter escrito
    7) no prazer de ser-se louvado pelos amigos
    8) no aborrecimento de só os amigos serem inteligente

C) Ensina a cair
    1) na política
    2) na crítica literária
    3) na Academia das Ciências
    4) na Aurora do Cávado
    5) nos colóquios poéticos
    6) nas histórias da cultura nacional
    7) nas páginas de jornais estrangeiros
    8) nas antologias de poesia experimental do orbe

O que um poema ensina
Nem um poeta imagina.

    Jorge de Sena

Eu que não sei ser feliz e escrever poesia, acho que a poesia não só ensina a cair como nos atira do altar do conforto e faz cair o poeta, aos tombos pela rua fora, desaustinado, desesperado... um pouco mais elucidado.

quarta-feira, 10 de março de 2021

A 8 de Março e sempre

Desobediência

Não me exijam 
que diga 
o que não digo 
não queiram 
que escreva
o meu avesso
não ordenem 
que eu acene
o que recuso 
não esperem
que me cale 
e obedeça.


Maria Teresa Horta

domingo, 7 de fevereiro de 2021

Se eu pudesse ser onda

Se eu pudesse,
Penetrava essa tua tristeza
E embrulhava-me nela devagar
Sem pressas, só a navegar no infinito do tempo
E mergulhar nesse vazio que te roubou o olhar

E demorava-me, ocupando o meu espaço
Trabalhando a infiltração oculta (até para ti)
que faz correr a lágrima que não caiu,
que obriga a soltar o grito esquecido no corpo,
que liberta a voz do medo e numa súbita fúria
destrói todos os lugares miseráveis do mundo.
Assim se transborda a dor de se saber só.

Toda a gente sabe que uma vez cá fora
A dor é um menino pequeno perdido e
deixa de saber entrar.

Se eu pudesse penetrava a tua tristeza e 
arrancava-te dela assim, simples, sem ruído
Ocupando todo o seu espaço.

Quem me dera
Ser onda.