terça-feira, 11 de agosto de 2026

ⵎⵕⵕⴰⴽⵛ

Há água a correr por baixo do palácio.
Corre serena, sem esforço, sem bombas
Vai às fontes, às piscinas, aos banhos
E corre só pelo declive, pelo vento
Pela verticalidade de cada momento.

Alguém percebeu que há água a correr
E que podia correr para onde for preciso.
Alguém percebeu que podia correr até
Discretamente para nós, por baixo de nós. 

Hoje ninguém sabe que há água a correr
Estão todos distraídos na beleza de si
Não têm sede. Têm fome só de ser vistos.
Hoje a mente está seca e há água a correr.


Marcha fúnebre

Um obrigada ao Lobo Antunes também 

segunda-feira, 15 de junho de 2026

O vento a passar e uma bicicleta no meio da estrada. 
Sem carros. Sem capacete. Sem sinais de trânsito. 
É a vida antes do constrangimento e da regra.
É a Praça de Espanha ao lado da Mouraria.
É a cidade roubada que nos foi devolvida.

E é absolutamente obrigatório habitar este instante.

Acho que a Adília também ia gostar 
de andar de bicicleta ao sábado na cidade.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

A sociedade do cansaço será então a sociedade da produção ausente. Nada produzir não é o mesmo que produzir o nada. Produzir o nada é quando se eliminou o objeto, a matéria, o concreto. Todo o fruto do trabalho passa a ser uma abstração: uns quantos códigos, umas tabelas de excel, otimização de algo (o quê?), exponenciar lucro de outrem (mas quem?), capitalizar paixões (mas quais?). E no final ainda na pulsão positivista continua a ser suposto o "tudo ser", construir um eu orgulhoso, tirar prazer do significado nulo. 

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Tempo livre de doença

Tempo livre de doença.
Livre. O tempo, dizem.

Mas no comboio que passa de madrugada,
nas buzinas, no fumo dos carros, nas árvores que não existem, na repetição infinita do alarme, na enchente na porta da escola, no betão por cima da calçada, na luz dos ecrãs, sempre a luz de tantos ecrãs, no tupperware do almoço, igual ao jantar no dia anterior, na hora de chegar a casa, na roupa estendida, na cozinha arrumada, no cheiro a casa esterilizada, no cinzento aborrecido das portas, no tal colégio que tem psicólogo. 
E no dia seguinte, o mesmo dia.

São as horas que se repetem que nos ofendem, joão
Livre onde? O tempo quando?
De que doença exactamente?

Existir até podemos, só somos pouco

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Íntimo não é um toque na perna
Nem é um abraço forçado 
Nem são mil e um beijos secos
Íntimo é a emoção correr fácil na tua presença 

segunda-feira, 14 de abril de 2025

 "Damos vertigens. Se entramos uns nos outros, damos vertingens"

 Contra mim falo, Vasco Gato

domingo, 1 de dezembro de 2024

As redes são o refúgio da mente
Um vazio que ocupa o lugar do medo
Cede o argumento, rouba-lhe o tempo
Sem (c)alma, enche o espaço vazio
Deixa morrer a ânsia de criar
Não durmas enquanto és triste.
Deve haver um certo receio em fechar os olhos.

Se as lágrimas correrem mais rápido.
Chegam aos ouvidos num instante e
Há risco de acordares alagada. 

Se te esqueceres do motivo da tristeza
Apagado num qualquer sonho ridículo 
Vais acordar ignorante e desamparada. 

Se de manhã ainda te recordas
É porque te corroeu no subconsciente
E podes até acordar sufocada. 

Estes casos tornam-se de resolução extremamente complexa. 

Pelo que não podendo dormir, 
aconselha-se a escrita

quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

Um bem-haja à camarada

Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe
sobe a calçada.

Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas,
não dá por nada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu da sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada;
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce a calçada,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.
Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

António Gedeão 

Até já, Odete Santos