A sociedade do cansaço será então a sociedade da produção ausente. Nada produzir não é o mesmo que produzir o nada. Produzir o nada é quando se eliminou o objeto, a matéria, o concreto. Todo o fruto do trabalho passa a ser uma abstração: uns quantos códigos, umas tabelas de excel, otimização de algo (o quê?), exponenciar lucro de outrem (mas quem?), capitalizar paixões (mas quais?). E no final ainda na pulsão positivista continua a ser suposto o "tudo ser", construir um eu orgulhoso, tirar todo o prazer de um significado que não existe.
Outro sul da margem
sexta-feira, 5 de junho de 2026
sexta-feira, 8 de maio de 2026
Tempo livre de doença
Livre. O tempo, dizem.
Mas no comboio que passa de madrugada,
nas buzinas, no fumo dos carros, nas árvores que não existem, na repetição infinita do alarme, na enchente na porta da escola, no betão por cima da calçada, na luz dos ecrãs, sempre a luz de tantos ecrãs, no tupperware do almoço, igual ao jantar no dia anterior, na hora de chegar a casa, na roupa estendida, na cozinha arrumada, no cheiro a casa esterilizada, no cinzento aborrecido das portas, no tal colégio que tem psicólogo.
E no dia seguinte, o mesmo dia.
Livre onde? O tempo quando?
De que doença exactamente?
Existir até podemos, só somos pouco
terça-feira, 17 de fevereiro de 2026
segunda-feira, 14 de abril de 2025
domingo, 1 de dezembro de 2024
Deve haver um certo receio em fechar os olhos.
Se as lágrimas correrem mais rápido.
Chegam aos ouvidos num instante e
Há risco de acordares alagada.
Se te esqueceres do motivo da tristeza
Apagado num qualquer sonho ridículo
Vais acordar ignorante e desamparada.
Se de manhã ainda te recordas
É porque te corroeu no subconsciente
E podes até acordar sufocada.
Estes casos tornam-se de resolução extremamente complexa.
Pelo que não podendo dormir,
aconselha-se a escrita
quarta-feira, 27 de dezembro de 2023
Um bem-haja à camarada
Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe
sobe a calçada.
Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas,
não dá por nada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu da sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada;
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce a calçada,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.
Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
António Gedeão
Até já, Odete Santos
terça-feira, 30 de maio de 2023
Quero a revolução
Aborrece-me tremendamente o estado das coisas
Esta névoa enjoativa de fumo que paira na cidade
Estes asfixiantes aglomerados de betão e vidro
A rotina insuportável de ir para o trabalho de manhã
Encontrar as mesmas pessoas insípidas do dia anterior
E os carros, sobretudo os carros, em todo o lado, os carros
Mais as notícias cada vez mais defuntas da televisão
O eterno comentário do comentário da frase que ninguém sabe quem disse
Até os melhores políticos, os filósofos, os artistas estão todos enterrados no mesmo quintal
E a repetição, a repetição infinita é um transtorno: repitam, corujas, repitam
Ninguém vos está a ouvir. Absolutamente ninguém
Quero a revolução, não pelo preço das casas, não pelo preço do pão.
Não para esmagar bafientos fascistas, que bem merecem.
Não pela emancipação das massas. Não para salvar o povo do capital.
Não para libertar as mulheres. Não para para aniquilar os rentistas.
Não para acabar com a finança, a especulação e a dívida.
Não para salvar todas as espécies, incluindo a nossa.
Isso tudo, claro. Mas não por isso.
Quero a revolução para voltar a música boa, o gingar da manhã e o sorriso do vizinho.
O que torna tudo muito mais urgente.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2022
Herbertamente
Acho que ele tem uma certa razão sobre as estátuas
Que efectivamente nos afrontam na sua nudez branca
Naquela imobilidade toda profundamente nauseabunda
E aquele cair do tecido estático, denso, quase troçando
Olham-nos enquanto gritam: pureza, fragilidade, terror
É Deus que na sua habitual brancura inocente se torna negro
São todas, uma a uma, apenas espelhos