terça-feira, 31 de maio de 2022

Enquanto uma vaca em Ardenas se solta

 " É claro que o nós não existe quando a barriga diz a fome. Quando a mulher diz a carne profanada. Quando o escravo diz o calor do chicote. Nós é um pronome de prósperos. Uma palavrinha cara aos humanistas. Somes universalistas quando não duvidamos dos dons do universo; somos do mundo inteiro quando se é bem-nascido nele. Nós é para não dizer nada do fundo da questão: que a humanidade não existe, mas apenas aqueles que dizem as ordens e aqueles que as ouvem. Nós é uma mentira de todo o tamanho."

Joseph Andras, em ASSIM LHES FAZEMOS A GUERRA, Tradução de Luís Leitão 

quarta-feira, 13 de abril de 2022

domingo, 20 de março de 2022

Nunca foste particularmente bonita
Nem nunca tiveste olhos grandes
Nem houve grande elegância no teu andar
Muito menos suaves melodias na tua voz

Nunca soubeste ter a cadência certa no discurso
Nem expressar com rigor as tuas ideias
Tão pouco ser suficientemente convicta
Para encher salas ou concentrar os distraídos

Sempre te conheci meio tosca, meio sisuda
Um tanto aluada, bastante desorganizada
Sem jeito para orientação temporal
E sem conservar qualquer memória dos espaços.

Praticamente todos os aspectos da vida prática
te ultrapassaram impiedosamente.
Tu, indiferente. Demais era o ócio 
para que fosse fonte de mínimo transtorno.

Massacraste-te só em doses moderadas
Por não seres essa mulher que não há, mas todas são.
Conseguiste até sê-la em alguns dias, com esforço,
como qualquer outra.

Apaixonaram-se uns quantos,
Desapaixonaram-se uns mesmos.
Viveste leve tirando os dias de melancolia. 
Para mim, incapaz de te amar 

serás sempre uma pessoa que sonha.
E que se entristece. E que sonha. 

José Asunción Silva


A acrescentar Sertalina 25mg de manhã 
para começar e Alprazolam 0.5mg ao deitar. 
É que se a serotonina não resolver,
 não restam muitas armas para o mal do século.

Não penso, logo não existo
Tão pouco importa que exista
Essa treta toda profundamente literária
Esses pensamentos todos pseudo-complexos
Essa ambiguidade fútil, fingida, forçada
Não serve grandes propósitos, nem faz correr searas, nem
             semeia rios, nem
                           colhe pingos de chuva.

Ocupa-te para que não penses
Não penses para que não existas
Não existas para que não incomodes
Dir-te-ão até ao fim do tempo
Repetirão sempre que oportuno
com raiva ou
                subtileza ou
                            profunda frustração.

Acontece que as palavras nascem
de um incomódo, uma angústia, um sufoco
As palavras e nós
Se não aguentas as palavras
Se te perturba a cognição inútil
Vê um filme ou
               troca de livro ou
                                            não existas.

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Ouvi (alguém) dizer

Ouvi dizer que só se sabe algo sobre as nossas próprias palavras com a distância do tempo, deixando-as amadurecer podem tornar-se agradáveis e doces, passando a ser lembradas com carinho, ou podem crescer rebeldes, irreconhecíveis e profundamente embaraçosas.

Achei que era realmente verdade. Deixo-as aqui assim, a amadurecer...

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Embala-me mais um pouco
Só até esquecer o espaço
Deixar de pensar o passo
Compreender o compasso 
Lembra-me que posso ser
gente com leveza no dançar

Embala-me mais um pouco
Só até correr uma lágrima
Terminar esta canção bonita que é
Tornar-me livre no teu abraço

Lembra-me que posso ser
gente com expressão no olhar.

 



Is it the absence of reason that set us free?
Free from the constraint of the body 
From the social prison of fear and judgment
Miles away from the scientific evidence tyranny 

Who are we without the right perfect connections of hemispheres?
Losing signaling pathways, regulation networks, homeostatic balance
Produce pathologically deep psychotic creatures needing help
Dysfunctional poor human beings drowning in the nonsense of brain
And somehow the most innocent, transparent, loving, incredibly brilliant ones

Where is creativity hiding after all? In the wrong neural intersections? 
The messy trials? The neurotransmitters overload?
Or is it just an unfair fight searching for reason in an unreasonable world?

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

NÓS SOMOS

Como uma pequena lâmpada subsiste
e marcha no vento, nestes dias,
na vereda das noites, sob as pálpebras do tempo.

Caminhamos, um país sussurra,
dificilmente nas calçadas, nos quartos,
um país puro existe, homens escuros,
uma sede que arfa, uma cor que desponta no muro,
uma terra existe nesta terra,
nós somos, existimos
 
Como uma pequena gota às vezes no vazio,
como alguém só no mar, caminhando esquecidos,
na miséria dos dias, nos degraus desconjuntados,
subsiste uma palavra, uma sílaba de vento,
uma pálida lâmpada ao fundo do corredor,
uma frescura de nada, nos cabelos nos olhos,
uma voz num portal e a manhã é de sol,
nós somos, existimos.
 
Uma pequena ponte, uma lâmpada, um punho,
uma carta que segue, um bom dia que chega,
hoje, amanhã, ainda, a vida continua,
no silêncio, nas ruas, nos quartos, dia a dia,
nas mãos que se dão, nos punhos torturados,
nas frontes que persistem,
nós somos,
existimos.

António Ramos Rosa

segunda-feira, 5 de julho de 2021

Um dia sonhei que tinha os teus olhos.

Não, não os olhos. 

Um dia sonhei que tinha o teu olhar 
cheio, que consegue penetrar a alma e 
(des)concertá-la num segundo apenas.

Assim, tal e qual, mulher-tornado
Sem receio da força da sua voz
Nem do poder do seu corpo.

Consciente, ainda que perdida em si
Na intensidade de um levantar voo
E na dúvida recorrente da aterragem

Se te disserem que és em excesso,
responde que de nós só há falta.
Dizer excesso é mera ignorância 
da escassa coragem de se ser seu.

Por isso excede-te sempre. Sem hesitação
Sem remorso. Sem lamúria. Sem pudor.
A vida não é feita para se ter grandes certezas.

E não te esqueças, que um dia, três mulheres-tornado disseram:
"O pudor é uma nostalgia, serve para fingir que estão mortos os vivos demasiado incômodos."