Gosto de um poema tanto quanto maior a sensação de que me roubaram as palavras
Outro sul da margem
quarta-feira, 30 de setembro de 2026
domingo, 13 de setembro de 2026
Amar é antes de tudo uma expressão de empatia
Uma curiosidade nascida na estranheza do outro
O procurar as semelhanças num corpo distante
E compreender uma vida inteira antes de nós
Se te aflige somente a ideia de estar só
Mas não te surge nenhuma pergunta
Nem te desperta uma profunda dúvida, e
ainda não consegues sair de dentro de ti
Espera mais um pouco
terça-feira, 11 de agosto de 2026
ⵎⵕⵕⴰⴽⵛ
Há água a correr por baixo do palácio.
Corre serena, sem esforço, sem bombas
Vai às fontes, às piscinas, aos banhos
E corre só pelo declive, pelo vento
Pela verticalidade de cada momento.
Alguém percebeu que há água a correr
E que podia correr para onde for preciso.
Alguém percebeu que podia correr até
Discretamente para nós, por baixo de nós.
Hoje ninguém sabe que há água a correr
Estão todos distraídos na beleza de si
Não têm sede. Têm fome só de ser vistos.
Hoje a mente está seca e há água a correr.
segunda-feira, 15 de junho de 2026
O vento a passar e uma bicicleta no meio da estrada.
Sem carros. Sem capacete. Sem sinais de trânsito.
É a vida antes do constrangimento e da regra.
É a Praça de Espanha ao lado da Mouraria.
É a cidade roubada que nos foi devolvida.
E é absolutamente obrigatório habitar este instante.
Acho que a Adília também ia gostar
de andar de bicicleta ao sábado na cidade.
sexta-feira, 5 de junho de 2026
A sociedade do cansaço será então a sociedade da produção ausente. Nada produzir não é o mesmo que produzir o nada. Produzir o nada é quando se eliminou o objeto, a matéria, o concreto. Todo o fruto do trabalho passa a ser uma abstração: uns quantos códigos, umas tabelas de excel, otimização de algo (o quê?), exponenciar lucro de outrem (mas quem?), capitalizar paixões (mas quais?). E no final ainda na pulsão positivista continua a ser suposto o "tudo ser", construir um eu orgulhoso, tirar prazer do significado nulo.
sexta-feira, 8 de maio de 2026
Tempo livre de doença
Livre. O tempo, dizem.
Mas no comboio que passa de madrugada,
nas buzinas, no fumo dos carros, nas árvores que não existem, na repetição infinita do alarme, na enchente na porta da escola, no betão por cima da calçada, na luz dos ecrãs, sempre a luz de tantos ecrãs, no tupperware do almoço, igual ao jantar no dia anterior, na hora de chegar a casa, na roupa estendida, na cozinha arrumada, no cheiro a casa esterilizada, no cinzento aborrecido das portas, no tal colégio que tem psicólogo.
E no dia seguinte, o mesmo dia.
Livre onde? O tempo quando?
De que doença exactamente?
Existir até podemos, só somos pouco