sexta-feira, 23 de outubro de 2020

O resto é bastante

Se David Grossman pergunta quem são os israelitas sem o ódio e quem são os palestianianos sem a luta, Daniel Barenboim já respondeu. São mais ou menos a 5ª sinfonia de Beethoven.

Queria era habitar os teus olhos

Ver com eles todos os antigos lugares
e provar a luz da cidade que nasce
nesse amanhecer inocente e frágil

Através do corpo que nos trazes, 
somente doce quanto calmo,
podia sentir a lucidez do teu vítreo
a sua transparência inevitável
aquela atenção veloz que dedica
ao detalhe
E por fim, olhar-me

Vem comigo habitar os teus olhos

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Língua-gem

Dizem "gosto de mulheres carismáticas". Assim como se o carisma fosse uma qualidade inesperada...numa mulher.

sábado, 10 de outubro de 2020

M.a.c

Vejo-os nascer onde nasci. São agora sobretudo filhos de mães emigrantes, vêm sozinhas e encontram-se rodeadas por pessoas que não falam nenhuma língua que percebam por completo. Dizem que as de naturalidade portuguesa já têm poucos filhos e ainda menos em hospitais públicos no centro de Lisboa.

Tu, homem, pedes para não utilizar a palavra parir, que é "muito forte". Melhor seria "dar à luz", eufemismo tranquilizante. Até porque há que poupar os homens à imagem real de mulheres a expelir à força crianças por vaginas que jorram misturas de todos os fluídos. Isso não é nada bonito. 

Acontece que são assim os momentos bonitos, cheios de uma sujidade imunda e lágrimas simultâneas de sofrimento e paixão. Não há dúvidas sobre o parto ser um evento traumático, não tocam violinos nenhuns no fundo nem há uma janela com o sol a pôr-se. Lamento a desilusão.

Isto são mulheres a parir de máscara, sem acompanhante, em salas minúsculas com portas de correr, a dar o seu melhor para não perder demasiada energia no grito. São mulheres que não podem dar nome ao filho, visto na sua cultura essa função ser exclusiva do pai. Pouco lhes importam as mazelas (usando uma expressão menos forte para as lacerações perineais) desde que o bebé chore e lhe digam que está bem e o coloquem contra o seu peito exausto.

Por isso, olha que se lixe, está na hora de se deixar de esconder a dureza da vida. É parir sim, com orgulho, com coragem.

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Num ritmo de uber driver

Se só podes amar com medo e ânsia 
Ama
Se não te recordas do amor profundo
Ama
Se só sabes amar num sôfrego tormento
Ama
Se te corrói a angústia do amor vão
Ama

Se só me podes amar abruptamente
Ama-me
                      num súbito rúgido doce
    ou na imensidão de um momento.

Se só te podes amar na melancolia
Ama-te
                    até à dor nas tuas vísceras
 te inundar de lágrimas o corpo frágil.

E se o mundo é terror, tragédia e morte
Ignora e ama-o.

Ama sempre, na mesma,
de qualquer maneira, de todas,
da forma que te permitas,
no lugar em que te encontras,
neste tempo em que te reconheces.

Desenganem-se os que se pensam
no poder de escolher. 

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

We've got you


I ain't got no home, ain't got no shoes
Ain't got no money, ain't got no class
Ain't got no skirts, ain't got no sweater
Ain't got no perfume, ain't got no bed
Ain't got no man
Ain't got no mother, ain't got no culture
Ain't got no friends, ain't got no schoolin'
Ain't got no love, ain't got no name
Ain't got no ticket, ain't got no token
Ain't got no god
Hey, what have I got?
Why am I alive , anyway?
Yeah, what have I got
Nobody can take away?
Got my hair, got my head
Got my brains, got my ears
Got my eyes, got my nose
Got my mouth, I got my smile
I got my tongue, got my chin
Got my neck, got my boobies
Got my heart, got my soul
Got my back, I got my sex
I got my arms, got my hands
Got my fingers, got my legs
Got my feet, got my toes
Got my liver, got my blood
I've got life, I've got my freedom
I've got life
I've got the life
And I'm going to keep it
I've got the life

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

O debate do absurdo

    Esta semana, um delegado apresentou uma moção na convenção de um partido político. Moção essa que foi considerada "absurda" pelo próprio partido numa tentativa (talvez propositadamente fraca) de distanciamento de si próprio. Ainda que a estratégia seja a ilusão da ruptura com o sistema, ainda há certas ideias que convém não expressar tão assertivamente quando o partido ainda está em ascensão. É contraproducente mostrar o máximo do extremismo logo no início da corrida, até porque há que guardar trunfos para quando se atinge ao topo e já se gerou o caos suficiente para os direitos humanos serem algo assumidamente ultrapassado.

    O absurdo já é um hábito nas ideias apresentadas por este partido. À inconstitucionalidade também já nos vamos habituando e até à ausência de qualquer réstia de humanismo também estamos a ficar acostumados. Portanto, nada de novo. Ainda assim, não deixa de ser relevante analisar as reacções que presenciei ao facto de 38 pessoas terem aprovado um documento, que entre várias coisas, dizia a seguinte:

"as mulheres que abortem no Serviço Público de Saúde, por razões que não sejam de perigo imediato para a sua saúde, cujo bebé não apresente malformações ou tenham sido vítimas de violação, devem ser retirados os ovários, como forma de retirar ao Estado o dever de matar recorrentemente portugueses por nascer, que não têm quem os defenda no quadro atual"

    Ora no meio hospitalar, o qual habito na maior parte do meu tempo útil, ouvem-se várias vozes naturalmente escandalizadas. De repente inicia-se um debate sobre a falta de carácter científico desta proposta, sobretudo pelos vários motivos pela qual a esterilização feminina acontece através da laqueação das trompas e não ooforectomias bilaterais. E assim, fala-se sobre a menopausa precoce, cancro ginecológico, aumento de risco cardiovascular, da demência, da osteoporose, entre outros, e consequentemente dos custos em saúde que tal implicaria... Conversa-se sobre o ridículo da falta de conhecimento na área da saúde que está latente em programas de todo no espectro político. Rimo-nos um bocado da ignorância alheia, com a condescendência habitual que nos diverte. Volta-se às rotinas das consultas.

     Ainda no meio social universitário observa-se ainda vários fenómenos argumentativos sobre o tema e surgem frases irónicas como "porque é que não tiramos os testículos aos homens que os fizeram". Rimo-nos mais um bocado.

    Estamos numa sociedade ocidental alegadamente desenvolvida a falar de submeter seres humanos a actos cirúrgicos não consentidos e é esta a reacção que nos ocorre? Estamos a falar de castração obrigatória de mulheres no Serviço Nacional de Saúde. Não é só obviamente inconstitucional. Não é só embrulhar a Declaração Universal dos Direitos Humanos e deitar ao lixo. É uma aberração histórica. É o alarme da democracia a tocar aos berros.

    Interessante é a facilidade com que o debate público cai na barbaridade e se entranha tão profundamente no universo do ridículo que discute assumindo a possibilidade de isto ser real. Pondero se este não será o verdadeiro objetivo, se não é pura estratégia. Uma vez aberto o espaço para ponderar sobre o absurdo, talvez se crie margem para se desvanecerem os limites da ética. E, pouco a pouco, nos vamos tornando menos humanos.

terça-feira, 22 de setembro de 2020

 


A queda do S

Sou simples
        Somo sóis
                   Sussurro sonetos
                                    Suspiro silentes
                                                   sensações
                                                                   sonoras

"As palavras não vêem a morte"


sobre - Teatro O Bando - no festival Todos