terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Ele, homem de fronteiras rígidas
Cru, duro, impenetrável na razão
Resistente ao saber-se só, 
Inesperadamente amante eterno
    só dela, 
   como se não existisse
nem alma, nem corpo, nem voz
nem vontade, nem memória
nem sentido, nem tempo
para esperar outra.

Ela, mulher infinitamente nua
Despida de abraços, despida de beijos
Precoce na desilusão do abandono,
Transporta a rejeição vitalícia
de se imaginar noutros lábios,
noutros corpos, noutras almas
noutras vozes, noutro sentido
noutro tempo. 
Só lhe é possível uma história única 
de amor. 

Será a capacidade de amar,
proporcionalmente inversa
ao número de vidas que temos?


quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Lemas da medicina (I)

O que é raro é raro
O que é frequente é frequente
Não há nunca sempres
Nem sempre nuncas

Pensa antes de tudo o resto,
Na hipótese trágica.

E 37°C não é febre.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

  Passo agora todos os dias pelo sítio onde aprendi a gostar de café, talvez tivesse uns 5 ou 6 anos. Comia à colher bolas de gelado de café com entusiasmo no centro comercial fonte nova. Um sítio muito pouco bonito, corredores longos e com pouca luz, uma gelataria pequenina, sem grande graça. Hoje, as crianças devem aprender a gostar de café em locais com um design moderno, onde lâmpadas LED descem dos tectos, plantas suculentas repousam em estruturas de madeira clara e ardósias anunciam brunch saudável. Talvez aprendam a gostar de imediato de latte com leite de amêndoa. Talvez nem se possa dar gelado de café aos 5 anos ou talvez até se possa mais cedo em virtude da desvalorização da tal diversificação alimentar.

   Certo é que as memórias de sabores não ligam realmente nenhuma ao sentido estético. 

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Desnorteado vendaval

Sei que sou vento sem norte
Resta-me navegar a pele fina
Deixar a maré guiar o pensamento
Arrastar este vazio inútil que é
a absorção do corpo pelo ar.

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Hoje esperança são aqueles 0.6 por cento. 
Algures no deserto do fim do mundo
Contam-se uns quantos papéis, poucos.
Não digas que não é nada. 
É tudo o que temos.
6 pessoas. Horas de espera. 
Intermináveis teorias.
Quero só ouvir que 
a esperança existe e 
tem um nome,
Nevada

 Regresso ao espaço do ponto de partida e penetra-me este vazio inconsciente, incoerente, reincidente.

 Habito de súbito um tempo em que não existimos. Surgem frações de segundo em que me questiono se o passado teve lugar físico fora da minha mente. E de repende ecoa aquela eterna pergunta:
 - E se eu nos inventei? 

 Numa criatividade alucinogénica qualquer, tão realista que só poderia ser minha, criando delírios com pés e cabeça e ilusões sobre a felicidade instável e complexa. Só por me conhecer é que não admito como prova irrefutável da realidade a imperfeição do sonho. Sim, muito provavelmente até o meu subconsciente é inabalável na negação da perfeição idílica. 

 Tenho esta sensação de estranheza, como se nos fossemos cruzar na rua a qualquer momento e não nos reconhecer. Como se a nossa memória colectiva tivesse um prazo de validade muito curto e fosse necessário reiniciar todos os circuitos a cada instante. Talvez como se o tempo que nos afasta fosse exponenciado e cada hora fossem 3 voltas ao Sol.

 Seriam muito curtas essas frações de segundo, não fosse eu ter ganho o vício de prolongar a invasão da dúvida, é a atração pelo surreal que atormenta. 

- A tua voz desperta-me, abraça-me, sossega-me.

 Desejo é conseguir despertar-me a mim própria. Com a minha voz. Quando diz: 
- Alice, acorda.

sexta-feira, 30 de outubro de 2020