sábado, 5 de setembro de 2020

Em jeito de Cena

 Contaminas as minhas memórias de um lugar bonito com as tuas histórias sobrepostas, distantes de mim e que não sendo minhas me contagiam. Não sendo eu, deixei de sentir que era o que pensei que tinha sido. Não sendo nós, estragou o meu entendimento do que julguei possível sermos. Como é que eventos que não têm relação connosco nos afectam tão profundamente quanto se lá estivessemos estado em presença? Como se fossemos plateia de uma tragédia cómica e assistindo de fora sentissemos um calafrio que nos confronta com o receio de que a nossa própria vida não passe de uma comédia trágica, ainda por cima de fraca qualidade. É devastador como é que a perspectiva de um momento se inverte por completo só com o conhecimento de vivências externas futuras a ele (ainda que passadas ao actual presente). E neste presente o que nos resta? Se a memória se dissipou e com ela a esperança no que não nos unindo, nos poderia unir. Claro que não é possível perder o rasto do vazio, no entanto há forma de nos levarem uma ideia e, mesmo que roubada inocentemente, não deixa de ser justa a reivindicação dos idiotas.

Sem comentários:

Enviar um comentário