quinta-feira, 8 de abril de 2021

Persegue-me um sopro por dentro

Nasce devagar na pontinha dos pés
Percorre a minha perna ainda tímido
Trepa todas as raízes da minha espinha
Contorna vísceras, trespassa o diafragma
Ganha de repente velocidades vertiginosas
Só para chegar num frio súbito ao peito
e me fazer (en)rolar sobre mim.

Não creio que seja a tua ausência,
Pensei que talvez a inexistência de ti.
Mas verdadeiramente não, só pode ser
Um sopro do medo ou da fúria.

Persegue-me um sopro
do medo de te perder
ou da fúria de me perder em ti.

Nascem no vazio as palavras
No espaço morto de um silêncio
É o som, a luz, o movimento, a cor
É a tua voz, a minha, o ruído do metro
Toda a vida que a correr nos poluí
e à escrita.

domingo, 21 de março de 2021

21 de Março e pela vida fora

Vilancete sobre o poema "ensina a cair" (Luiza Neto Jorge)

 A) Ensina a cair:
    1) sentado
    2) de joelhos
    3) de bruços
    4) de gatas
    5) de papo para o ar
    6) por conta própria ou alheia
    7) sozinho ou mal-acompanhado
    8) ou bem

B) Ensina a cair:
    1) na preguiça
    2) na desgraça
    3) na cadeia
    4) no vício
    5) na satisfação de escrevê-lo
    6) na arrelia de o não ter escrito
    7) no prazer de ser-se louvado pelos amigos
    8) no aborrecimento de só os amigos serem inteligente

C) Ensina a cair
    1) na política
    2) na crítica literária
    3) na Academia das Ciências
    4) na Aurora do Cávado
    5) nos colóquios poéticos
    6) nas histórias da cultura nacional
    7) nas páginas de jornais estrangeiros
    8) nas antologias de poesia experimental do orbe

O que um poema ensina
Nem um poeta imagina.

    Jorge de Sena

Eu que não sei ser feliz e escrever poesia, acho que a poesia não só ensina a cair como nos atira do altar do conforto e faz cair o poeta, aos tombos pela rua fora, desaustinado, desesperado... um pouco mais elucidado.

quarta-feira, 10 de março de 2021

A 8 de Março e sempre

Desobediência

Não me exijam 
que diga 
o que não digo 
não queiram 
que escreva
o meu avesso
não ordenem 
que eu acene
o que recuso 
não esperem
que me cale 
e obedeça.


Maria Teresa Horta

domingo, 7 de fevereiro de 2021

Se eu pudesse ser onda

Se eu pudesse,
Penetrava essa tua tristeza
E embrulhava-me nela devagar
Sem pressas, só a navegar no infinito do tempo
E mergulhar nesse vazio que te roubou o olhar

E demorava-me, ocupando o meu espaço
Trabalhando a infiltração oculta (até para ti)
que faz correr a lágrima que não caiu,
que obriga a soltar o grito esquecido no corpo,
que liberta a voz do medo e numa súbita fúria
destrói todos os lugares miseráveis do mundo.
Assim se transborda a dor de se saber só.

Toda a gente sabe que uma vez cá fora
A dor é um menino pequeno perdido e
deixa de saber entrar.

Se eu pudesse penetrava a tua tristeza e 
arrancava-te dela assim, simples, sem ruído
Ocupando todo o seu espaço.

Quem me dera
Ser onda.

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Ele, homem de fronteiras rígidas
Cru, duro, impenetrável na razão
Resistente ao saber-se só, 
Inesperadamente amante eterno
    só dela, 
   como se não existisse
nem alma, nem corpo, nem voz
nem vontade, nem memória
nem sentido, nem tempo
para esperar outra.

Ela, mulher infinitamente nua
Despida de abraços, despida de beijos
Precoce na desilusão do abandono,
Transporta a rejeição vitalícia
de se imaginar noutros lábios,
noutros corpos, noutras almas
noutras vozes, noutro sentido
noutro tempo. 
Só lhe é possível uma história única 
de amor. 

Será a capacidade de amar,
proporcionalmente inversa
ao número de vidas que temos?


quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Lemas da medicina (I)

O que é raro é raro
O que é frequente é frequente
Não há nunca sempres
Nem sempre nuncas

Pensa antes de tudo o resto,
Na hipótese trágica.

E 37°C não é febre.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

  Passo agora todos os dias pelo sítio onde aprendi a gostar de café, talvez tivesse uns 5 ou 6 anos. Comia à colher bolas de gelado de café com entusiasmo no centro comercial fonte nova. Um sítio muito pouco bonito, corredores longos e com pouca luz, uma gelataria pequenina, sem grande graça. Hoje, as crianças devem aprender a gostar de café em locais com um design moderno, onde lâmpadas LED descem dos tectos, plantas suculentas repousam em estruturas de madeira clara e ardósias anunciam brunch saudável. Talvez aprendam a gostar de imediato de latte com leite de amêndoa. Talvez nem se possa dar gelado de café aos 5 anos ou talvez até se possa mais cedo em virtude da desvalorização da tal diversificação alimentar.

   Certo é que as memórias de sabores não ligam realmente nenhuma ao sentido estético. 

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Desnorteado vendaval

Sei que sou vento sem norte
Resta-me navegar a pele fina
Deixar a maré guiar o pensamento
Arrastar este vazio inútil que é
a absorção do corpo pelo ar.